Pesquisa de integrante do FutureLab aplica Inteligência Artificial para prever variações no nível do mar na Nova Zelândia

Como a Inteligência Artificial pode ajudar a compreender as transformações que estão acontecendo nos oceanos? Essa é uma das questões que fazem parte da pesquisa desenvolvida por Lucas Melacarne, doutorando do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG e integrante do FutureLab, durante seu período de doutorado sanduíche na Nova Zelândia.

Com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), Lucas está na Victoria University of Wellington (VUW), sob supervisão do professor Alejandro Frery, do Departamento de Matemática, Estatística e Ciência de Dados. A oportunidade surgiu a partir de um edital lançado em 2025 voltado ao tema “Inteligência Artificial Responsável no Mundo Contemporâneo”.

A experiência internacional já fazia parte dos planos do pesquisador. Mais do que avançar academicamente, Lucas buscava construir uma fundamentação matemática e estatística mais robusta para seu trabalho, explorar novas aplicações para a pesquisa desenvolvida no Brasil e vivenciar um novo ambiente científico e cultural.

Inteligência Artificial encontra os oceanos

Lucas trabalha, desde o mestrado, com modelos de Inteligência Artificial voltados à previsão espaço-temporal. Esses modelos são treinados com séries temporais multivariadas coletadas em diferentes pontos do espaço e permitem identificar tendências e realizar projeções sobre como determinados fenômenos se comportam ao longo do tempo.

No início do doutorado, Lucas trabalhou com os pesquisadores e pós-doutorandos do FutureLab, no desenvolvimento de um modelo inicialmente aplicado à previsão de tráfego urbano: o Graph Neural Cellular Automata (GNCA). O trabalho desenvolvido pelo grupo em 2025 foi aceito, no início de 2026, no periódico científico Expert Systems with Applications.

A chegada à Nova Zelândia trouxe um novo desafio: encontrar uma aplicação ambiental para o modelo. Foi então que Lucas encontrou bases públicas de dados geoespaciais disponibilizadas por instituições neozelandesas, com informações coletadas por estações ambientais distribuídas pelo território do país. Entre os diferentes conjuntos disponíveis, os sensores responsáveis por medir as variações no nível do mar despertaram sua atenção.

IA para compreender as variações no nível do mar

A proposta é fazer com que o modelo aprenda simultaneamente duas dimensões do problema: a evolução do nível do mar ao longo do tempo em cada sensor e as relações espaciais existentes entre diferentes pontos da costa.

A partir dos dados históricos, o sistema pode utilizar informações provenientes de diferentes sensores para prever como o nível do mar deverá se comportar nos momentos seguintes.

O desafio possui particularidades importantes na Nova Zelândia. Além de fenômenos globais associados às mudanças climáticas, como o derretimento de geleiras e a expansão térmica dos oceanos, os movimentos das placas tectônicas podem provocar alterações locais no nível relativo do mar.

Nesse contexto, ferramentas capazes de monitorar o fenômeno, identificar tendências e produzir projeções podem gerar informações relevantes para planejamento, tomada de decisão e ações de contingência.

Não basta prever: é preciso compreender a IA

Outra dimensão importante da pesquisa está relacionada à interpretabilidade dos modelos.

Depois de treinado e validado, o sistema poderá incorporar técnicas de Explainable AI (XAI) para investigar quais variáveis possuem maior impacto sobre suas previsões.

Isso permite ir além de simplesmente obter uma resposta do algoritmo. O objetivo é compreender quais informações foram determinantes para determinada previsão, quais tiveram menor influência e como diferentes variáveis se relacionam.

“Podemos entender melhor como o modelo toma suas decisões e, consequentemente, compreender melhor o funcionamento de um sistema que é complexo”, destaca

Uma experiência internacional que vai além da pesquisa

A rotina na Victoria University of Wellington também tem proporcionado a Lucas contato com pesquisadores de diferentes partes do mundo. Semanalmente, ele participa de seminários, grupos de estudos sobre Inteligência Artificial e apresentações de pesquisas em desenvolvimento. A universidade também oferece diferentes possibilidades de integração à comunidade acadêmica, incluindo mais de uma centena de grupos organizados pelos próprios estudantes.

Para Lucas, porém, uma experiência internacional dessa natureza envolve desafios que ultrapassam a atividade científica. Adaptação a um novo país, organização financeira, construção de relações e participação ativa na comunidade acadêmica fazem parte do processo.

“Trabalhar em um ambiente internacional vai muito além da pesquisa em si. É também uma oportunidade de conhecer diferentes formas de trabalhar, de pensar e de fazer ciência”, ressalta.

DCC e FutureLab: construindo pontes internacionais

A formação construída na UFMG também foi determinante para que Lucas estivesse preparado para essa experiência. Segundo o pesquisador, tanto o DCC quanto o FutureLab possuem uma rede internacional de colaborações que contribui para criar pontes entre pesquisadores e instituições.

Ao mesmo tempo, a formação acadêmica recebida durante o doutorado proporcionou a base necessária para enfrentar novos desafios científicos. “Essa combinação entre a formação acadêmica e as oportunidades de colaboração proporcionadas pelo DCC e pelo FutureLab foi muito importante para que eu pudesse chegar até esse projeto”.

Inteligência Artificial mais eficiente e sustentável

Os próximos passos da pesquisa podem abrir uma segunda frente igualmente relevante: tornar modelos de IA mais eficientes computacionalmente.

Lucas vem investigando a modularidade do GNCA. Como o modelo é formado por unidades celulares que funcionam individualmente como modelos preditivos, alterações na rede (como a inclusão ou retirada de um sensor) não exigiriam necessariamente que todo o sistema fosse treinado novamente.

Essa característica pode permitir adaptações mais eficientes e reduzir os custos computacionais associados à atualização e manutenção dos modelos.
A discussão ganha ainda mais relevância diante do crescimento acelerado da Inteligência Artificial e da quantidade de recursos necessários para desenvolver e operar modelos cada vez mais complexos.

Para Lucas, especialmente considerando a realidade latino-americana, desenvolver novas tecnologias também significa pensar em modelos capazes de utilizar menos recursos sem abrir mão de confiabilidade e interpretabilidade.

A pesquisa desenvolvida na Nova Zelândia reforça, assim, uma das vocações do FutureLab: conectar formação científica de excelência, colaboração internacional e Inteligência Artificial à busca de soluções para desafios reais da sociedade.

Mais do que levar pesquisas desenvolvidas na UFMG para outros países, experiências como a de Lucas fortalecem uma rede global de conhecimento e trazem novos aprendizados para o desenvolvimento de tecnologias mais responsáveis, eficientes e sustentáveis.

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Patrícia Accacio

Possui formação em Consultoria e Facilitação Integral pela Chié Integrantes – Meta Integral (2022); Possui Especialização em Gerenciamento de Projetos pela Pontifícia Católica de Minas Gerais (PUC/MG) (2012); Possui Especialização em Gestão Estratégica de Finanças Empresariais pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI/BH) (2007); Possui graduação em Turismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (2005); Discente em Disciplinas Isoladas do Mestrado em Inovação Tecnológica da Universidade Federal de Minas Gerais (2019, 2023). Mais de 20 anos de experiência em Gerenciamento de Projetos e Equipes. Atualmente é colaboradora da Universidade Federal de Minas Gerais, com interesses pelas linhas de pesquisas de gestão integral, cultura organizacional, impactos na mudança de gestão e facilitação de grupos.

 

Contato:  patricia.accacio@dcc.ufmg.br

Heitor Soares Ramos Filho

Heitor Ramos é Professor Associado de Ciência da Computação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil, com mais de uma década de experiência no ensino, pesquisa e coordenação de projetos de P&D. Sua expertise abrange Aprendizado Federado, Análise de Dados para Internet das Coisas (IoT), Redes de Sensores, Redes Sociais e aplicações de Computação Urbana.

O professor Ramos é editor acadêmico da revista científica PLOS ONE e membro sênior do IEEE, além de ser bolsista de produtividade do CNPq, nível 2, desde 2016. Ao longo de sua carreira, foi reconhecido por suas contribuições acadêmicas, incluindo o prêmio de “Best Paper” da conferência ACM SenSys em 2012 e sua participação como PhD Fellow da Microsoft Research em 2010.

Ele é um membro ativo da comunidade científica, com mais de 100 artigos científicos publicados em conferências e periódicos de alto impacto, além de uma patente registrada no USPTO. Como orientador, supervisionou mais de 18 alunos de pós-graduação e 16 projetos de graduação, contribuindo significativamente para a formação de pesquisadores e profissionais da área.

Além de suas atividades acadêmicas, o professor Ramos dedica-se à aplicação prática da ciência da computação para resolver desafios contemporâneos em IoT, Aprendizado de máquina e computação urbana.

Contato ramosh@dcc.ufmg.br

Frederico Gadelha Guimarães

Professor Associado do Departamento de Ciência da Computação da UFMG. Possui graduação (2003), mestrado (2004) e doutorado (2008) em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com período de doutorado sanduíche na McGill University, Montreal, Canadá (2007), e pós-doutorado (2018) no Laboratoire Images, Signaux et Systèmes Intelligents (LiSSi), vinculado à Université Paris-Est Créteil (UPEC), Paris, França. Foi professor do Instituto Federal Minas Gerais campus Ouro Preto (IFMG-OP) (2007 a 2008). Foi professor adjunto do Departamento de Computação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) (2008 a 2010) e coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência da Computação da mesma instituição. Foi professor associado do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG (2010 a 2023) e fundador do Laboratório Machine Intelligence and Data Science (MINDS) (http://minds.eng.ufmg.br/) de pesquisa em inteligência computacional e ciência de dados. Foi Coordenador Didático do Curso de Graduação em Engenharia de Sistemas (2012 a 2014). Foi Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica (PPGEE) da UFMG (2021 a 2024). É Pesquisador associado do Centro de Inovação em Inteligência Artificial para a Saúde (CIIA-Saúde) da UFMG. Atualmente é Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq nível 1D (desde 2017). Foi Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq nível 2 (2011 a 2017). É Editor Associado das revistas Learning Nonlinear Models, Neurocomputing (Elsevier), Engineering Applications of Artificial Intelligence (Elsevier), Evolving Systems (Springer) e IEEE Access. Foi membro do conselho superior da Sociedade Brasileira de Inteligência Computacional (SBIC) no período (2009 a 2013), membro da diretoria da SBIC no período (2013 a 2015), membro do International Council on Systems Engineering (INCOSE) e membro fundador do INCOSE Brasil. Atualmente é membro do Conselho superior da SBIC (2021 a 2025). Possui mais de 200 trabalhos publicados entre periódicos, congressos e capítulos de livros nacionais e internacionais. Já orientou e coorientou 27 teses de doutorado e 38 dissertações de mestrado. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica e Engenharia de Computação, com ênfase em Otimização, Inteligência Artificial, Aprendizado de Máquina, Algoritmos Genéticos, Séries Temporais. Senior Member da IEEE Computational Intelligence Society (CIS), IEEE Systems Council e IEEE Systems, Man, and Cybernetics Society (SMCS).

Contato fredericoguimaraes@ufmg.br

Marcelo Azevedo Costa

Professor Titular no Departamento de Engenharia de Produção da UFMG e membro do Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção (linha Modelagem Estocástica e Simulação) da mesma instituição. Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999), doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002) na área de Inteligência Computacional, pós-doutorado pela Harvard Medical School Harvard Pilgrim Health Care (2007) na área de Estatística Espacial e Vigilância Epidemiológica e pós-doutorado pela Linköping University (2018/Suécia) na área de Análise Estatística, Diagnóstico e Detecção de Faltas em Ambientes Industriais. Atualmente é o coordenador do Centro Institucional de Tecnologia e Inovação Modelagem Ambiental (CT-Modelagem) e do Centro de Sensoriamento Remoto (CSR), ambos vinculados à UFMG. É membro da coordenação técnica da Linha VI: Conectividade veicular do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), uma iniciativa do Governo Federal com o propósito de impulsionar a modernização e a sustentabilidade nas áreas da mobilidade e logística no Brasil. É também pesquisador vinculado ao Future Lab – Laboratório de Transformação Digital do Departamento de Ciência da Computação (DCC/UFMG). Possui publicações em importantes revistas internacionais como Socio-Economic Planning Sciences, IEEE Transactions on Power Delivery, IEEE Transactions on Neural Networks and Learning Systems, Statistical Methods in Medical Research, PLOS One, Scientific Reports, Energy Economics, dentre outras. É autor do livro: Tópicos em Ciência dos Dados – Introdução dos Modelos Paramétricos e suas aplicações utilizando o R. É revisor de periódicos internacionais e nacionais, além de possuir capítulos de livros publicados em língua inglesa. Coordenou e participou em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PDI) vinculados à CEMIG e atua como pesquisador sênior em projetos de PDI. Orienta alunos de graduação, especialização, mestrado e doutorado nos temas: estatística aplicada, modelos estatísticos aplicados ao setor elétrico, análise de redes, estatística espacial, análise de séries temporais, teoria e aplicações de redes neurais artificiais. Segundo revista Decision Analytics (2022) é um dos 15 pesquisadores internacionais mais produtivos na área de incentive regulation, e um dos 35 pesquisadores brasileiros mais influentes na área de Engenharia Industrial, Tecnologia e Manufatura (AD Scientific Index 2024)

Contato macosta@ufmg.br

Antonio Alfredo Ferreira Loureiro

Possui graduação em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais (1983), mestrado em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais (1987) e doutorado em Ciência da Computação pela University of British Columbia, Canadá (1995). Atualmente é Professor Titular do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Ciência da Computação, com ênfase em sistemas distribuídos, atuando principalmente nos seguintes temas: algoritmos distribuídos, computação móvel/ubíqua, comunicação sem fio, gerenciamento de redes, redes de computadores, redes de sensores sem fio.

Contato loureiro@dcc.ufmg.br

Martín Gómez Ravetti

É pesquisador e atualmente professor associado no Departamento de Ciência da Computação da UFMG. Interesses atuais de pesquisa incluem, sistemas complexos, redes complexas, otimização de processos industriais e cultura organizacional. Possui graduação em Engenharia Industrial pela Universidad Nacional de Rosario (Argentina) e mestrado e doutorado em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com período na University of Florida (USA). Durante o periodo 2007-2010 foi research academic na University of Newcastle (Australia) e realizou estudos pós-doutorais na Universitat de Barcelona e na Universitat Pompeu Fabra (Espanha). Foi diretor da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa da UFMG (2018-2022). Publicou 40 artigos em periódicos internacionais, orientou 6 alunos de doutorado e 10 de mestrado, atualmente é bolsista de produtividade no CNPq 1B.

Contato martin@dcc.ufmg.br